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20/5/2016
O PROCESSO DE APRENDIZAGEM DE CRIANÇAS ATÍPICAS: ADEQUANDO OS ESTÍMULOS
Quando a criança nasce, existe um período de intensas conexões neuronais, conhecido entre zero a três anos, onde essas conexões se estabelecem de forma a contemplar a maturação neuronal necessária para que ocorra todo seu desenvolvimento. Esse período se mantém após os três anos, porém com uma intensidade menor. Sabe-se que esse tempo é fundamental pois é a partir daí que se formam as bases para a aprendizagem. É importante conhecer o funcionamento do sistema nervoso para que se possa compreender as patologias que comprometem o desenvolvimento. Há uma série delas que se manifestam do nascimento da criança até a primeira infância.

Pelos estudos que foram descritos até hoje a partir do desenvolvimento da cognição, a aprendizagem acontece de maneira gradual, cronológica e evolutiva. Pensando numa evolução como uma escada de degraus, a criança precisa estar segura (com desenvolvimento adequado) em um degrau para poder subir ao próximo, e poder assim avançar em seu processo de maturação cerebral. Quando isso não ocorre, vão se gerando lacunas.

Quando a criança passa para as próximas etapas e fases do desenvolvimento sem ter conseguido resolver os problemas daquela fase, ela acaba por desenvolver estas lacunas, espaços vazios ou não bem preenchidos que irão gerar déficits maiores. A partir dessa lógica, fica clara a importância de explorar ao máximo cada fase, para que se possa evoluir de uma fase para outra sem ter lacunas que gerariam outros déficits e assim sucessivamente. É nesses casos que temos crianças com distanciamento grande entre a idade cronológica e a idade cognitiva.

Trabalhando em uma linha de raciocínio que visa a estimulação e seguindo a lógica de desenvolvimento neurológico, se tem a possibilidade de trabalhar os déficits e lacunas de maneira a diminuir ou compensar, utilizando estratégias que venham de encontro com esses estímulos necessários a fase que foi avaliada com déficit.

É sabido dos resultados tão positivos a partir de uma intervenção precoce, o que se deve ao próprio funcionamento cerebral a forma como ocorre a maturação e o processo de aprendizagem.

Se para as crianças neurotípicas a aprendizagem se dá de maneira processual e está em constante evolução, onde se utilizam das experiências geradas pelo próprio meio em que estão inseridas para obterem suas aprendizagens. Para as crianças atípicas o mesmo conceito sofre algumas alterações na prática. Existem limitações tanto por parte da própria criança como também por parte dos profissionais no que se refere às oportunidades de absorver aquilo que os mais diversos ambientes tais como o escolar, e social, entre outros, tão ricos em suas múltiplas facetas, tem a oferecer.

Tão importante quanto garantir a inclusão em todos os níveis em seu desenvolvimento é a adequação e adaptação do estímulo oferecido, para que possam de fato desempenhar seu papel de criança aprendiz no sentido de seu desenvolvimento integral, assim como os demais. Podemos usar o exemplo da escola, quando pensamos em qualquer estudante de qualquer escola, pública ou privada e no seu processo educacional, podemos pensar numa linha de desenvolvimento constituída de disciplinas, grade curricular, avaliações, entre outros. Isso vale para todos, porém necessitando de estratégias para que os objetivos possam ser alcançados diante das especificidades.

Se o processo de aprendizagem se dá quando a criança recebe o estímulo, consegue fazer sua interpretação e devolver uma resposta adequada, é necessária a seguinte reflexão: de que maneira estes estímulos estão chegando até ela, tendo em vista o processo individual com relação a essa capacidade de interpretação.

As interpretações e respostas produzidas são armazenadas na memória para quando vier a receber um estímulo semelhante a esse, conseguir resolver, pois automatiza a aprendizagem. É fato que todo e qualquer estímulo quando associado a situações funcionais, fatos do dia a dia e quando isso é feito de maneira concreta, ativa muitas outras conexões cerebrais, fazendo com que aquele aprendizado seja melhor armazenado, e posteriormente possa ser acessado.

Sendo assim, a automatização da aprendizagem é quando se consegue aprender e não esquecer mais, como por exemplo, andar de bicicleta, quando se aprende uma vez, não se precisa mais pensar em cada ato a ser feito, pois se transforma em algo automático, embora ainda possa ser aprimorado.

Um segundo passo desse processo de aprendizagem e que comumente é observado como uma grande dificuldade por crianças atípicas é a generalização do conhecimento. Após ter automatizado, passa-se então a fazer uso deste conhecimento de forma coerente para diversos contextos, e não mais utilizado somente para uma situação.

A generalização nada mais é do que usar esse conhecimento de maneira funcional. Considerando a automatização um processo importante dentro da cognição, mais ainda e um passo adiante seria a generalização. Por isso podemos pensar que realizar atividades dentro do contexto real da criança traz melhores resultados, uma vez que existe essa dificuldade tanto com a generalização quanto com a abstração. As intervenções dentro de uma lógica funcional reforçam a aprendizagem e ocupam um lugar onde as atividades façam sentido para a criança.


Aline Zanotto
Assessora e Consultora da Inclusão Eficiente





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